Omonni: o novo coreano da Marina de Cascais que nos ensina a respeitar as tradições
- 29 de mai.
- 4 min de leitura
Kelly Choi abriu o Omonni na Marina de Cascais para honrar as receitas da sua mãe e ensinar os ocidentais a saborear a autêntica gastronomia coreana, longe de modas ou da comida rápida.

Kelly Choi mudou-se da Coreia do Sul para Cascais há oito anos e havia algo que lhe fazia confusão: a forma como os ocidentais comiam comida coreana. Às vezes é apenas uma confusão cultural – como aconteceu quando o McDonalds chegou ao seu país natal: “Muitas vezes comíamos cada ingrediente do hambúrguer à vez. Primeiro o pão, depois a carne, depois os pickles e, por fim, o outro pão”, descreve. Para mais ninguém passar esta vergonha, decidiu abrir uma casa para ajudar a passar as tradições de forma correcta. “No Omonni, quero que percebam como é que se deve comer.”
Inaugurado no passado dia 1 de Maio, o restaurante promete trazer à Marina de Cascais a verdadeira e autêntica essência da gastronomia coreana. O projecto nasceu de um desafio antigo e de uma promessa que cruzou oceanos. Kelly Choi, a proprietária e mentora deste conceito, recorda que a semente do restaurante foi lançada logo à sua chegada a Portugal: "Moro em Cascais há oito anos. Quando me mudei para cá, o embaixador coreano de Portugal pediu-me para fazer um restaurante típico do nosso país porque, naquela altura, não existiam muitos".
Kelly chegou a iniciar um projecto em Lisboa, mas as obras de arquitectura coincidiram com o início da pandemia e o espaço acabou por fechar antes de abrir. Anos de planeamento depois, surge finalmente o Omonni. O nome não foi escolhido ao acaso e remete directamente para a raiz e a missão do projecto: "Significa mãe em coreano e é assim que muitas pessoas me tratam neste espaço", diz à Time Out a proprietária.

A grande missão do Omonni é honrar a memória e o legado culinário da progenitora de Kelly Choi, hoje com 94 anos de idade, recriando as suas técnicas artesanais e a pureza dos alimentos. "A minha mãe trabalhava numa quinta, éramos uma família modesta. Eu adorava os seus cozinhados", partilha a proprietária, descrevendo que a mãe colhia os vegetais directamente da terra e cozinhava sem recorrer a qualquer aditivo químico.
Amor de mãe
É esse respeito por um processo de cozinha lenta e pela saúde que dita a identidade do espaço cascalense, afastando-se radicalmente do modelo de comida rápida dos anteriores negócios de Kelly — que detém mais de mil quiosques e restaurantes de sushi e conceitos coreanos rápidos espalhados por supermercados e grandes superfícies em 12 países. O Omonni é o total oposto. É um restaurante onde os processos exigem tempo, dedicação e afecto. O objectivo desta casa é preservar as origens das receitas e a forma de comer, recusando-se a descaracterizar a tradição.

Este compromisso é visível no rigor do menu. Os molhos tradicionais e os molhos de soja e de miso, assim como o ssamjang (uma massa espessa feito com doenjang, gochujang, azeite de ssemas, alho e cebola), são trazidos directamente da Coreia. Contudo, o restaurante apoia-se em ingredientes locais, especialmente os vegetais e legumes, aplicando uma fusão entre as técnicas coreanas e o produto nacional para preparar as receitas inspiradas na mãe de Kelly.
Dos grelhados aos estufados
A ementa inclui entradas, grelhados e acompanhamentos tradicionais, pensados, na sua maioria, para dividir. O desfile gastronómico, que foi experimentado com muita felicidade (e alguma dificuldade, dada a quantidade de pratos diferentes) pela Time Out começou com as entradas onde se destacam o yuk-jeon (16€), que consiste em finas fatias de carne de vaca levemente envolvidas em polme de ovo e douradas na frigideira, e o yuk-hoe (18€), semelhante ao bife tártaro. Seguem-se as panquecas coreanas, como a sam saek jeon (16€), uma opção de três cores com marisco e legumes sazonais, e a clássica haemul pa-jeon (16€), uma panqueca salgada que combina marisco e cebolinho. Além do incontornável frango frito do Omonni (16€) há jap-chae (14€), uma generosa dose de massa de batata-doce salteada com legumes sazonais, que pode levar um acréscimo de carne por mais um euro.

No centro da experiência está o Menu Coreano BBQ, onde brilha a carne. Entre os cortes de eleição encontra-se o wagyu u-seol (20€), que oferece dez porções de língua de carne bovina wagyu, ou o wagyu português (90€), um corte de vazia ou entrecôte proveniente duma produção exclusiva no Alentejo e se destaca pelo seu marmoreado equilibrado e sabor profundo. Felizmente, foi Kelly na mesa a preparar esta carne e não o próprio jornalista, que nunca iria acertar no ponto das peças, desperdiçando a sua qualidade.
A secção de pratos principais e acompanhamentos apresenta o geuril-yong yachae mikseu (12€), uma selecção cuidada de legumes e cogumelos sazonais para a grelha, a seleção especial de kimchi (9€), que traz três variedades artesanais desta famosa conserva feita pelos próprios, e o dolsot bibimbap (16€), um reconfortante arroz misto de legumes com gochujang e molho de soja, servido numa panela de pedra quente, disponível com carne de vaca ou tofu.
A refeição encerra com o pat-bingsu (12€), uma sobremesa de gelo laminado com feijão vermelho doce e pedaços de mochi.

Mais do que servir comida, a filosofia do Omonni passa por educar o cliente na arte de saborear a refeição à boa maneira coreana, com especial enfoque no ritual do ssam, que consiste no acto de pegar numa folha de alface fresca, colocar uma base de arroz, adicionar a carne grelhada e o respectivo molho, enrolando tudo firmemente para ser comido numa única dentada.
Apesar de ainda estarem em "soft opening", a proprietária fez questão de explicar o método à sua equipa, caso esta não esteja pessoalmente para ensinar cada cliente. "Essa é a forma tradicional que eu quero que comam os pratos que a minha mãe me passou. Porque a comida coreana não é apenas um prato. A comida coreana é feita de muitas pequenas partes", explica. “Queremos tratar os clientes como se fossem a nossa família, os nossos filhos, e que sintam que é a mãe que está a servir a comida”.
Marina de Cascais. Seg-Qui 12.00-15.00; 18.00-00.00; Sex-Dom 12.00-00.00
Escrito por
Jornalista



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